Quinta-feira, 9 de Junho de 2005

Pare-se para pensar

   Na altura em que havia ainda de andar na escola, quis o destino que fosse obrigado a entrar no mercado de trabalho. Foi duro não poder estudar por questões económicas, quando alunos bem piores do que eu, puderam tranquilamente continuar os seus estudos, só porque vinham de famílias mais abastadas. Achei-me vítima duma profunda injustiça e, provavelmente, isso definiu o meu carácter e a minha intransigente defesa por uma sociedade onde exista uma verdadeira igualdade de oportunidades.

   Desde esse longínquo ano de 1972, até agora, sempre cumpri com a parte que me estava atribuída. Da outra parte, do Estado, contava que tivesse o mesmo comportamento.

   Por vezes diz-se que os funcionários públicos se acomodaram à situação. Embora não sendo nem querendo ser exemplo para ninguém, refiro aqui o meu próprio caso. Comecei a trabalhar aos 15 anos, por força das circunstâncias. Quando a vida me permitiu, e com muito esforço à mistura, continuei a estudar no liceu, à noite, e entrei mais na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Aqui, a exigência foi muita, mas consegui levar de vencido o curso de História. Tirei também o curso de Jornalismo, dada a paixão que tenho pela Imprensa. Estudando e trabalhando, consegui chegar ao topo da minha carreira profissional, com bastante esforço.

   Depois de mais de 30 anos de actividade, o Governo de Durão Barroso rasgou unilateralmente o acordo que o Estado fez comigo, e obriga-me a trabalhar mais 8 anos. Agora, José Sócrates rasga também o contrato que o seu antecessor me obrigou a aceitar e impõe-me que eu trabalhe mais 13 anos do que estava no contrato inicial. Feitas as contas, vou ter de trabalhar e descontar 50 anos !? Um absurdo. Quando estou a 3 anos da data prevista e acordada para a minha aposentação, o Governo obriga-me a trabalhar mais 17 anos. É uma medida duma insensibilidade inqualificável.

O que lamento no meio disto tudo, é que todas as contas estão mal feitas, as opções além de injustas estão erradas e, em vez de se libertarem empregos para os mais jovens, vão obrigar os mais velhos a arrastarem-se nos serviços, desmotivados e improdutivos, enquanto os jovens ficarão em casa desempregados e sem qualquer esperança no futuro. Muitos dos que agora têm 25 anos, na melhor das hipóteses, irão conseguir o seu primeiro emprego aos 40 anos.

   Sou dos acreditam que Portugal tem solução. Mas, para isso, ninguém pode ser autista. É necessário que todos, sem excepção, parem para pensar e saibam escolher as melhores soluções que nos façam sair da crise. A imposição de medidas, que não sejam apreendidas pelos visados, só abrirá clivagens na nossa sociedade. Se o Estado não cumpre a sua palavra, em quem vamos acreditar? Em democracia, a credibilidade é um bem a defender.

 

in "AURINEGRA" - 07-06-2005 

in "O DESPERTAR" - 24-06-2005

publicado por José Soares às 14:38
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4 comentários:
De Kalokas a 28 de Junho de 2005 às 16:57
Há palavras que enchem os textos de cores. “Kaliynka” sabe esquivar-se ao cinzento, enchendo de luz todos os seus textos. Intervém com inteligência e saber. Acreditando que, em parceria com o autor, não somos os dois únicos leitores deste blogue, e estando os dois em sintonia de pensamentos, não consegui-mos dar-lhe algum contraste com uma pincelada de polémica. Uma dúvida, parece termos em comum, para onde vai a Democracia em que acreditámos. “Que democracia é esta?” . A origem da palavra é conhecida “demos” que vem do grego e que significa povo. Por isso, nas democracias, as responsabilidades cívicas são exercidas por todos os cidadãos. São eles que elegem livremente os seus representantes para governar e decidir sobre assuntos públicos. O povo organizado em partidos, modela o governo que se encarrega de preservar e proteger os seus direitos e liberdades individuais. Os partidos, ainda que algum ou alguns deles seja governo, não estão assim em patamar superior ao cidadão. Eles são povo. Lutam entre si nas campanhas, são livres para criticar ideias políticas e são também livres de apresentar as suas propostas. Todos eles têm valores comuns de compromisso e tolerância. Há no entanto uma característica que tem sido esquecida. A VERDADE! A conquista do voto utilizando a mentira, faz cair por terra, o crédito que se deposita nos representantes. Não se pode acreditar em números apresentados ou em mensagens de recessão ou progresso, quando se está perante cidadãos deliberadamente hipócritas e mentirosos. Como se pode respeitar autoridade num governo eleito, quando para o ser, utilizou a mentira em quase todas as suas propostas? Ludibriado, o cidadão questiona-se, se vale a pena exercer o seu direito de escolha. Tal como se nos apresenta a democracia, não vai além de dar oportunidade ao povo para votar nos que mais habilidade têm para mentir. O que se extrai deste quadro deprimente é o saber, que a democracia se está a extinguir. O mesmo processo que actuando automaticamente varreu do planeta em determinada hora o sistema comunista, que fez cair por terra (e continua a fazê-lo) todos os regimes do espectro político baseados na força e na opressão, este mesmo processo desintegrará também o corrupto sistema democrático, quando o tempo para isso tiver chegado. Melhor dizendo, limpará a Terra desse sistema.
Não se trata de uma afirmativa leviana nem de uma profecia sem fundamento, mas tão somente da antevisão de um processo inevitável, natural e automático de depuração. O sistema perfeito há-de chegar !


De Kaliynka a 25 de Junho de 2005 às 23:44
Já não é a 1ª vez que aqui manifesto total agrado pelas palavras de alguém que se intitula «kalokas», pensa como eu, escreve bem melhor que eu, e, sinto-me bem pois tudo o k tinha para dizer já foi dito.
Mas, há mais, eu também fui daquelas pessoas que comecei a trabalhar com 16 anos e 7 meses, bem cedo, quando as minhas colegas de Moçambique andavam a estudar na África do Sul pois eram filhas de famílias mais abastadas e outras até vinham directamente para Portugal para casa de avós continuar os estudos superiores, mas comigo isso não aconteceu...
Pelas palavras que diz, tb eu me senti desde bem nova vítima de uma cruel injustiça e talvez seja hoje a pessoa que sou, de língua afiada e que luta pela verdadeira igualdade de oportunidades.
Diz-se que os funcionários públicos se acomodaram à situação...pois, não fui eu com toda a certeza, pois estou na função pública há apenas 10 anos, já entrei no tempo das vacas magras...embora tivesse trabalhado 3 anos antes em contratos que não servem de nada para a contagem de tempo...mas...enfim!
Termina...em democracia...mas onde está a democracia quando alguns professores que estavam em casa de greve a semana que passou foram chamados às suas escolas com ameaça de PROCESSO DISCIPLINAR, isto é que é uma DEMOCRACIA...???


De Jos Soares a 24 de Junho de 2005 às 21:29
Caro Kalocas. Estou esmagado com a tua pertinência. Um abraço.


De Kalokas a 24 de Junho de 2005 às 16:58
Portugal padece de uma doença muito grave, pode mesmo dizer-se que é crónica. A cura não obedece a tratamentos paliativos de momento, terá que ser combatida com tratamentos de longo prazo. A reorganização de todo o sistema social, político, judicial, educacional, militar e empresarial estará na base do tratamento. Dispondo de massa humana com capacidades demonstradas em diversos sectores da sociedade, teria que a aproveitar de forma empenhada a disponibilidade dos portugueses, e não hostilizá-los de forma arrogante e prepotente.

Apoiado numa escrita a “bold” numa resma de papel dos números imaginários do défice público, que não leva de certeza à conquista de um Nobel da literatura, levou o governo a tomar medidas quase cegas para fazer subir impostos, apontar armas sem escrúpulos ao funcionalismo público, e ainda não satisfeitos, tomar as medidas menos sociais de que há memória na área da saúde em especial nos medicamentos para doenças crónicas.
Prescrição do Governo:
- Relançar a economia com aumento de impostos
- Melhorar condições de saúde com menor comparticipação nos medicamentos
- Diminuir o desemprego com aumento da idade da reforma
- Choque tecnológico com descapitalização das empresas
- Melhorar a educação com a introdução do inglês em 25 % das escolas
- Atacar a fuga ao fisco quando muitos quadros superiores dessas empresas são membros dos partidos governamentais
É com esta prescrição que nos querem fazer crer que assim é governar!
Ninguém tem esperança de ver assim um Portugal curado, nem tão pouco melhorado. As medidas financeiras tipo “mercearia de bairro”, não planeadas irão gerar custos sociais a curto/médio prazo, com um efeito “bola de neve”, que daqui a poucos anos estes ou outros políticos que estiverem nos lugares a que nos habituaram a chamar “governo”, voltarão a encomendar relatórios ao Banco de Portugal, para mais uma vez penalizar os portugueses.
Estamos na cauda da Europa em salários, no nível de vida e na carga fiscal. Para aumentar o “ego” nacional os políticos portugueses, anseiam a integração na EU de mais países de Leste. Assim já podem olhar para os gráficos e ver outros países piores do que Portugal, e com a “lábia” que se lhes conhece dizer orgulhosamente que retiraram o país do fundo da listas.


A doença de Portugal, está na falta de opinião nos votos que amavelmente se depositam em cada acto eleitoral. A alternância política entre dois partidos, cujos membros monopolizam os lugares de quadros superiores do país desde lugares políticos, à gestão de um simples centro de saúde, passando por empresas de capital público, hospitais e institutos. O país está cativo e acorrentado a dois partidos PS e PSD cuja doutrina é a mesma. O compadrio, a corrupção e os tachos.

Chamar de “líder” a alguém que depois de estar na cadeira do poder, esquece as promessas eleitorais, aplica medidas gravosas para os portugueses e para Portugal sem precedentes, só mesmo um povo que se encontra destroçado, e roçando no estádio de falta juízo.

Não querendo faltar ao respeito aos vendedores ambulantes, parece, que não ficaria mal chamar a uma pessoa com este perfil, e um vendedor de pomadas milagrosas que fazem sarar chagas, secam calos e estimulam o sexo, mais conhecida por “banha da cobra”.


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