Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

O aborto e a morte duma criança

Se existem assuntos fracturantes na sociedade portuguesa, a interrupção voluntária da gravidez, vulgo aborto, é seguramente um deles.

O tema é tal maneira importante, que o Presidente da República achou por bem adiar a discussão desse assunto para mais tarde, de modo a abranger o maior número de participantes. Duma forma mais ou menos determinada, são muitos aqueles que tentam influenciarem os outros das suas pretensas verdades. Tudo é legítimo, desde que não se ultrapasse os limites do razoável.

O assunto é tão importante, que não deve nem pode ser misturado com qualquer outro tema. Foi exactamente isso que fez o pároco de Lordelo do Ouro. Durante a missa do sétimo dia por Vanessa, a criança que terá morrido por maus-tratos provocados pelo pai e pela avó, esse padre teve a ousadia, o desplante e a pouca vergonha de afirmar o seguinte: “O aborto é matar um ser humano que não se pode defender, enquanto a Vanessa, de cinco anos, podia gritar, acusar e ficava com marcas no corpo que outros podiam ver”. Para que não restassem dúvidas, esta mau exemplo da Igreja, esclareceu textualmente esta frase no “Correio da Manh㔠de 13/5/2005, reafirmando-a.

Acho perfeitamente normal, que toda agente utilize os meios ao se dispor, para defenderem os seus pontos de vista. Mas não pode valor tudo. Para defender as suas ideias, este mau padre não tinha o direito de ofender a memória de quem teve tão trágica morte. Como é que uma criatura destas, pode afirmar que uma criança de cinco anos se podia defender, gritando ou acusando os seus familiares? Será que a Vanessa não aumentava ainda mais o seu sofrimento, se seguisse estas absurdas ideias? Se uma mulher mal tratada não reage por medo do marido, como se podia defender uma criança de cinco anos do seu pai e avó?

Não confundo, nem deve ser confundido, a opinião deste mau exemplo de padre, com a própria Igreja. Mas, também não é possível que tudo fique na mesma. A hierarquia da Igreja, tem de dar provas públicas que não concorda com estes comportamentos, levados a cabo por um dos seus membros. É mau de mais, para se fazer de conta que nada de importante se passou e que é a imprensa que está a empolar o assunto.

Os membros duma instituição tão importante como a Igreja, não podem confundir o aborto com maus-tratos nas crianças. É também por causa destas confusões, que Portugal está em primeiro lugar (dados da OCDE de 2004) nos casos de maus-tratos a crianças.

 

In "DIÁRIO DE COIMBRA" - 15-06-2005 e 19-06-2006 (repetido) 

www.diariocoimbra.pt

 

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publicado por José Soares às 23:08
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1 comentário:
De Kalokas a 24 de Junho de 2005 às 17:23
Os votos do sacerdócio é tornar viva a palavra de Cristo e a missão que ele confiou a seus discípulos. "É mostrar que Cristo está vivo, que continua entre nós no mundo de hoje". O Padre Domingos Oliveira da paróquia de Lordelo do Ouro, infelizmente não sendo caso único, demonstrou na sua homília que não tem perfil, competência e humanismo para ser discípulo de Cristo.
Coitados dos que recebem apoio espiritual deste e de muitos outros padres assim! Deles será o Reino dos Céus !!!


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