Domingo, 25 de Dezembro de 2005

Pobres crianças pobres

Pobrescriancaspobres.jpg


Dada a época que atravessamos, para mim aquela onde a hipocrisia mais se faz notar, entendi trazer hoje uma história ocorrida o ano passado, mas que infelizmente continua actual. Acreditem que vale a pena lerem-na até ao fim.


Se há alturas em que aparentemente estamos mais solidários, o Natal é seguramente uma delas. Há no entanto, casos que não podem passar despercebidos. Se calhar já todos nós assistimos a casos idênticos. Mas, como colaborador permanente da imprensa, considero ter mais responsabilidade para denunciar algumas situações do nosso quotidiano.


Por princípio, tento ao máximo fugir às grandes concentrações de pessoas. Nestes casos, está seguramente uma ida a qualquer grande superfície. Pior ainda, se for em épocas festivas. Por isso, foi para mim um suplício ter que ir agora ao Continente (poderia ser noutro qualquer estabelecimento do género), para comprar aquilo que não encontro noutro sítio.


Depois de mais um teste à minha capacidade de sofrimento, lá aguentei aquele parafernália de compradores de Natal. Apesar da crise, é impressionante a quantidade de compras que se fazem nesta altura, quando na sua grande maioria, elas já não terão qualquer utilidade quando entrar o novo ano. Venho eu com dois produtos, quando deparo com um casal e uma criança, agarrados a um carro que já se mostrava pequeno demais para a grande quantidade de prendas, dados os seus insuspeitos embrulhos, alusivos à época. Nem de propósito. A senhora, com ar de quem nunca teve problemas na vida, depara com uma situação que a tirou do sério. À saída, uma criança, mais ou menos com a idade da sua filha, estende-lhe a mão com o objectivo de receber qualquer moeda. Fria como o dia, esta senhora dispara para o marido, mas alto para que mais ouvissem (afinal estava ciente da sua razão): “É nisto que a Polícia devia pôr os olhos. Gastamos aqui o nosso dinheiro e ainda temos que aturar pedintes!”.


Não vou adjectivar as atitudes desta senhora, até porque, infelizmente, não é a única a ter este tipo de atitude. No entanto, deixo aqui alguns dados em números da Unicef, tornados públicos no ano passado: 2,2 mil milhões de crianças até aos 15 anos; 1 em cada duas crianças vivem na pobreza; 640 milhões não têm habitação adequada; 500 milhões não têm acesso a saneamento; 400 milhões não têm acesso a água potável; 300 milhões não têm acesso a informação; 270 milhões não têm acesso a cuidados de saúde; 140 milhões, na sua maioria raparigas, nunca foram à escola; 90 milhões de crianças sofrem de graves privações alimentares e 700 milhões de crianças sofrem pelo menos de duas ou mais destas privações.


Muito sofrem estas pobres crianças pobres, para as quais todos nós vamos contribuindo com a nossa indiferença.



in "DIÁRIO DE COIMBRA" - 24-12-2005 - www.diariocoimbra.pt

publicado por José Soares às 21:51
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2 comentários:
De Joara Rubim a 23 de Fevereiro de 2008 às 14:19
"O mundo pede socorro"


De Antonino Neves a 30 de Dezembro de 2005 às 11:47
São imagens e números assustadores! Sabemos que tudo isso é verdade, mas parece mentira. Também preocupa saber que os "donos" desses países pouco ou nada fazem para ajudar os seus habitantes e as guerras que neles proliferam nada ajudam. Enfim, que mais dizer?


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